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| Ser ou não ser vegetariano? |
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A escolha dos alimentos ainda é, para a maioria dos clientes que atendo no meu dia a dia, uma questão cultural – o que se come não tem exatamente, uma função nutritiva, mas um condicionamento afetivo. O resultado é que comemos as mesmas categorias de alimentos, nos mesmos horários definidos, num tempo em que a vida era muito menos exigente.
Fiquei muito impressionada lendo a autobiografia de Gandhi (Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade, Mohandâs Karamchand Gandhi). Ele buscava uma alimentação ética, saudável e espiritual. Para isto, estudou vários autores e experimentou em si mesmo diversas formas de se alimentar. Do ponto de vista da ética ele diz:
“...os autores que tratavam do vegetarianismo haviam chegado à conclusão de que a supremacia do homem sobre as espécies animais inferiores não implicava que a humanidade considerasse estes últimos como presas, mas que o tipo mais evoluído protegia o inferior, e que havia auxílio mútuo entre eles, assim como de homem para homem”.
Uma cliente me surpreendeu hoje, dizendo que “estava” vegetariana há um mês e que se sentia mais leve, o intestino funcionando melhor, tinha emagrecido, mas, ao mesmo tempo, estava mentalmente perdida. Não sabia o que comer e como preparar os alimentos, de tal forma a se manter saudável e satisfeita, sem nenhum déficit de nutrientes já que as pessoas à sua volta que ela ia acabar adoecendo sem comer carne. Então me contou que estava em um churrasco de família e sua sobrinha de 6 anos, depois de oferecer-lhe o churrasco algumas vezes, disse a ela:
- Você nunca aceita, sempre diz obrigada, você não vai comer nada?
Então ela achou melhor explicar que não estava comendo carne. E uma criança que se preze, não deixaria passar a pergunta:
- Porque?
Outra surpresa para mim foi a resposta que a Tia deu à Sobrinha. Ela explicou que era amiga dos animais e que não queria maltratá-los e que para se comer carne, os bichinhos precisavam morrer. Isto é ética! Muitas vezes esta é uma resposta bonita, mas não verdadeira, especialmente quando a cultura, o desejo ou o hábito se sobrepõem à escolha consciente de proteger os indefesos.
É óbvio que ser vegetariano apenas, não é garantia de boa saúde, mas é um bom começo! Quer saber mais sobre isto, experimente!!! Faça a experiência por um mês e então me diga como se sentem em relação à sua saúde física, mental e espiritual. Algo muda, às vezes, sutilmente, mas não posso provar nada a você. A experiência é que pode lhe dizer e esta é individual.
No último dia de aula do meu curso de formação para professora de yoga, estudamos sobre estilo de vida. Naquele domingo, cheguei em casa diferente:
- A partir de hoje sou vegetariana, por favor, me entendam. É um anseio da minha alma e eu quero experimentar.
No início também me sentia perdida, ficava mais fácil quando podia ir a um restaurante vegetariano porque encontrava pessoas que possivelmente tinham feito escolha semelhante e me sentia mais adequada socialmente falando. A seguir, percebi que para comer bem eu precisava aprender a cozinhar. Algo que aprendi muito rapidamente é que temperos tratam o alimento e o nosso organismo e quando modificamos a qualidade dos alimentos com o tempero adequado, estamos nos medicando com a comida. Simples, prático, sem estresse e muito mais em conta.
A vida social fica realmente limitada. Os restaurantes não oferecem opções para os vegetarianos. Muitas pessoas ainda acreditam que ser vegetariano é comer folhas ou saladas frias. Nada disso, só não comemos carnes, comemos todos os outros alimentos. Cabe aqui dizer que o vegano é aquele que também não come ovos e leite de vaca que são derivados animais. Existem os que optam pela dieta com ovos e leite, chamados ovo-lacto-vegetarianos e aqueles que optam pelo leite: lacto-vegetarianos.
Ser vegetariano, porém, traz consigo uma consciência sobre os alimentos, que vai além do não comer carne. Começamos a ficar seletivos em relação à natureza dos alimentos. Queremos alimentos orgânicos ou com o mínimo de aditivos químicos. Deixamos de lado os atrativos industrializados e passamos a consumir mais alimentos vivos. Trocamos o supermercado pelo sacolão e ainda, quando possível, encontramos alguém que planta em casa e revende em uma feirinha. Queremos qualidade e, custa pouco criar uma hortinha no fundo do quintal para quem tem casa ou cultivar ervas em vasos, que antes abrigavam, flores, com o objetivo de se ter uma erva fresquinha e de qualidade bem à mão.
Recentemente li uma frase, em um livro de massagem ayurvédica, que me tocou profundamente: “Não se deve por sobre a pele uma coisa que não se poria na boca”. Pensei nas inúmeras concessões que fazemos em nome da estética, da aparência, para por fim aos cabelos brancos, por exemplo. Já pensou se colocássemos as tintas de cabelo na boca... o que seria de nós? Em pouco tempo estaríamos envenenados e sem saúde.
Por fim, gostaria de falar do aspecto espiritual de uma dieta. Aprendemos no Yoga que uma alimentação espiritual favorece os sentidos de conexão e intuição. Este alimento é do tipo leve, habita os éteres (os frutos que crescem em árvores), é facilmente digerido e por isto não sobrecarrega nosso sistema digestivo e nem embaça nossos sentidos. A proteína animal é o alimento de natureza mais densa e, portanto, de mais difícil digestão. Os alimentos industrializados e muito processados contêm poucos nutrientes e uma química acentuada que visa proteger o alimentos de se deteriorar.
Os alimentos que vêm diretamente do pomar ou da horta se dividem em 3 tipos – tamásicos, rajásicos e satávicos. Os alimentos tamásicos são aqueles que se desenvolvem debaixo da terra. É fácil perceber que alimentos como batata, inhame, mandioca dão uma sensação maior de saciedade e são recomendados para quem precisa de força física para o trabalho. Os alimentos rajásicos são os legumes e verduras, algumas frutas que crescem perto do solo, este são mais sutis e trazem leveza. Os alimentos satávicos crescem no alto, em árvores, estão mais perto do céu, são ainda mais sutis e nos elevam.
Com a medicina Ayurvédica aprendemos que algumas combinações de alimentos não facilitam o processo digestivo. Um exemplo significativo e muito praticado em nosso cotidiano é o de misturar leite e seus derivados com frutas ácidas. O leite coalha ao chegar ao estômago e envolve os outros alimentos dificultando a atuação do suco gástrico no processo de digestão. Outra mistura freqüente é a salada de frutas. Frutas devem ser ingeridas separadamente. Cada fruta tem seu próprio requisito em termos de digestibilidade e quando juntas não serão totalmente absorvidas.
Para aqueles que se decidirem por experimentar a alimentação vegetariana adotem o uso de ervas no preparo dos seus alimentos. A combinação de cebola, alho e gengibre – considerada pelo Kundalini Yoga como as três raízes sagradas – é muito adequada a vários pratos. A cúrcuma (açafrão indiano) é um tempero considerado anti-inflamatório, principalmente quando associado à pimenta-do-reino.
O cominho é altamente digestivo e o cardamomo é extremamente saboroso, além de ter a propriedade de aquecer o organismo melhorando o fogo digestivo. A asa-fétida é estimulante e alivia espasmos. Uma pitada dela cozida com lentilhas melhora a digestão.
Estão aqui algumas dicas para se começar a experimentar uma nova maneira de se alimentar.
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